Quando se trabalha no campo, dia-a-dia, com cães de pastoreio uma cena é recorrente: o campo, o rebanho a pastar, um peão e seu Border Collie.

O cão não espera um comando verdadeiramente, mas apenas uma liberação. Aguarda por um som ou gesto que signifique: “Pode ir!” “Pode fazer o que você sabe que deve ser feito!”

Ele não parte diretamente para o rebanho e quem não sabe o que está acontecendo imagina que o ele se perdeu de seu objetivo, que está correndo em direção errada, que não sabe o que está fazendo. Porque o traçado de sua corrida se afasta cada vez mais do núcleo do rebanho.

Sem diminuir a velocidade o cão olha os animais e calcula o raio da corrida. Cauteloso, atento e rápido. Pela velocidade e postura parece uma flecha. Uma flecha que aparentemente se dirige para um local totalmente diverso do alvo. Mas ele esta certo. Totalmente certo. É uma corrida estratégica. Ele está “caçando”!

Aos poucos sua corrida aberta começa a se desviar de modo a desenhar um largo círculo que tem como ponto central o núcleo daquele rebanho. Assim ele circunda o rebanho todo e, de repente, a corrida estanca em um ponto específico. Esse ponto é exatamente o ponto final de uma reta perfeita que partindo do seu líder, o peão, passa pelo núcleo do rebanho e termina no próprio cão. É incrível!

Após a grande e larga corrida o cão para no ponto exato que acaba por deixar o peão, rebanho e cão perfeitamente alinhados.

E os animais do rebanho nem o notaram. Continuam distraídos e placidamente pastando.

Era esse, desde o início, o primeiro objetivo do cão. Logo que se encontra alinhado irá dar início ao seu segundo objetivo ao se dirigir direto ao rebanho calmo, seguro e firme, agachado, cauteloso, olhar fixo e penetrante. É um caçador habilidoso! A intenção agora é agrupar os animais e fazê-los moverem-se alinhadamente em direção ao peão. Ele os está empurrando ao seu líder. Está conduzindo suas “presas” à “armadilha”.

O rebanho tenta escapar desse alinhamento, mas o cão impede. Alguns animais se negam a caminhar e o cão investe sobre eles e os obriga a seguirem o trajeto que irá acabar no peão. Outros animais do rebanho se rebelam e enfrentam o cão, mas o caçador sabe o que fazer e, passo a passo, olho no olho, avança determinado. Os animais rebeldes ficam inseguros, sentem o domínio do cão e cedem. Os animais antes insubmissos se introduzem no rebanho, e o cão relaxa. Tudo sobre controle. O rebanho acelera na direção desejada e o cão retira a pressão.

Não interessa a esse cuidadoso caçador corridas e excitação desnecessárias que possam por todo seu trabalho a perder. Então, por gestos e posturas, o cão “conversa” com os animais do rebanho. Eles “falam” a mesma linguagem, o cão entende e se faz entender, o que o coloca em larga vantagem em relação ao homem no modo de relacionamento com os animais a serem manejados.

Ele segue a risca seu plano e não quer falhar. Isso tudo ele faz por iniciativa própria e sem comando algum além da permissão inicial do seu líder. Nessa fase do trajeto o cão já estudou e conhece todos os animais do rebanho. Sabe quais são os remissos, quais os rebeldes, quais os subordinados.

Os rebeldes ele não descuida. Os remissos ele repreende com atos mais severos, com postura mais agressiva. E assim ele vai, com autoridade, seguro, decidido, cuidadoso, eficiente.

Num determinado momento, sem comando algum, ela para. O rebanho está encurralado entre ele e seu líder. Ele esta com satisfação, contente. Mas não realizado. Ele queria mais. Ele sempre quer mais. E está sempre pronto para mais. Ele é um caçador insaciável. Um caçador que não mata.

O que anima esse “caçador-pastor” é dominar o rebanho, e sua felicidade vem disso: Recolher, subjugar e entregar esse rebanho ao seu líder.

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