As doenças genéticas, os testes de DNA e o Border Collie no Brasil

Recentemente, em conjunto com laboratórios dos EUA e do Brasil, iniciou-se
uma nova fase na criação da raça Border Collie no Brasil, que promete
revolucionar a maneira como os cães desta raça vem sendo criados e
comercializados em

Dentre as doenças testadas estão:

CEA/CH – Collie Eye Anomally, ou doença do olho do Collie, é uma doença
comum nos Collies, mas que também atinge outras raças como o Pastor de
Shetland, Bearded Collie, Australian Shepherds, Lancashire Heelers e o Border
Collie. Caracteriza-se pela presença de Hipoplasia Coroidal (CH) que é o que
caracteriza a doença, às vezes Colobomas e raramente, nos casos mais
graves, Descolamento de Retina, que leva à cegueira total ou parcial. Não tem
cura.

CL – Neuronal Ceroyd Lipofucinosis, que é um defeito no armazenamento dos
Lysossomas no interior das células de vários tecidos do organismo do animal,
principalmente a nível cerebral e que resulta num acúmulo destes corpúsculos
provocando vários tipos de desordens. Os sintomas vão desde tremores,
ataques, espasmos e a morte do animal jovem ainda, ± 2 a 3 anos. Ocorre em
raças como English Setters, Tibetan Terriers, American Bulldogs e no Border
Collie. Esta doença não tem cura e é uma das mais terríveis, pois provoca
muito sofrimento no animal.

TNS – Trapped Neutrophil Syndrome, que é um defeito no transporte de
Neutrófilos (Glóbulos Brancos) responsáveis por defender o organismo de
infecções, os Neutrófilos são produzidos no interior dos ossos, mas não
chegam aos locais infectados. Geralmente os filhotes morrem antes de
completar 2 meses, de infecções generalizadas, ou ainda depois da primeira
dose de vacina. Longe de ser uma doença rara, ela pode ser diagnosticada
erroneamente como Parvovirose, ou Corona virose, ou outra doença comum
qualquer, simplesmente porque os filhotes morrem com os mesmos sintomas,
as diarréias sanguinolentas, vômitos, a falta de apetite, etc., dependendo da
infecção que os acomete. É de difícil diagnóstico, pois a contagem de
Neutrófilos é normal nos hemogramas. Não tem cura. (Este exame é realizado
pela OptiGen (veja a página das Clínicas OptiGen),

MDR1 – Multi Drug Resistence, que é a falta de uma proteína (P glicoprotein),
responsável pelo bombeamento de metabólitos dos fármacos ingeridos, para
fora das células do organismo, principalmente no cérebro, onde a falta dessa
proteína acarreta o acúmulo de substâncias tóxicas que não são bombeadas
para fora das células, matando os animais por intoxicação nervosa. Esse
exame é realizado no Brasil, pelo LAFA da UFRGS e tem custo irrisório.

Todas as doenças citadas anteriormente são provocadas por genes recessivos
e são facilmente detectadas no exame de DNA, onde os resultados possíveis
podem ser:

CLEAR / NORMAL – o cão é homozigoto dominante e não tem o gen da
doença. Ex: AA
CARRIER / PORTADOR – o cão é heterozigoto e saudável, não apresenta a
doença, mas carrega o gen que a provoca. Ex: Aa
AFFECTED / AFETADO – o cão é homozigoto recessivo e apresenta a doença,
variando em níveis de severidade de acordo com cada indivíduo e qual a doença
que o afeta. Ex: aa

Baseado numa tabela de cruzamentos, o criador pode evitar o aparecimento
futuro dos genes em seus filhotes, evitando assim que eles apresentem as
doenças. Basta fazer o teste de DNA e reformular seu plano de criação, para
eliminar os genes recessivos de seu futuro plantel.

Neste ponto chegamos ao grande impasse! Vejam na tabela abaixo os
cruzamentos que não produzem filhotes doentes, em qualquer uma das
doenças citadas acima:

Baseado nesta tabela, um criador, dito responsável, pode cruzar cães
Portadores com Normais e produzir filhotes saudáveis, mas com probabilidade
de metade das ninhadas serem Portadores também. Pode ainda cruzar um cão
Afetado com um Normal e produzir todos os filhotes Portadores, mas
saudáveis. Estes filhotes só poderiam ser cruzados com cães Normais,
sempre. Seguindo à risca esta técnica, o criador não precisa afastar um cão
Portador ou Afetado, que seja um bom reprodutor, de sua criação, bastando
para isso investir um pouco mais e testar o DNA de todos os filhotes da
ninhada, para saber quais são Portadores e quais são Normais. Pode-se ainda
castrar os filhotes Portadores para não se correr o risco de disseminar os
genes que provocam as doenças e estes filhotes seriam vendidos como pet ou
para esportes ou trabalho, mas não para reprodução, ou se este fosse o caso o
criador deve deixar clara a possibilidade de disseminação da doença ao novo
criador/proprietário e ensinar a técnica para que o gen não afete seus futuros
filhotes. Pode-se ainda criar um Código de Ética entre os criadores para que
esta seja uma regra a ser seguida, como já ocorre em alguns Clubes e
entidades ligadas à raça.

Porém a história da raça atualmente no Brasil não acena com boas notícias.
Após alguns testes de DNA, realizados em poucos cães ainda, detectou-se um
grande percentual de cães Portadores de CEA/CH e até Afetados. Isto se deve
ao fato que terem sido feitos durante os últimos anos, cruzamentos entre cães
Portadores, que foram trazidos ao país sem que fossem feitos testes pelos
criadores de fora, ou mesmo um estudo sobre a genética dos cães para estas
doenças, já que o advento dos testes de DNA é uma novidade e ainda é caro.
Isto trouxe os genes recessivos para nosso plantel e disseminou pelo país
algumas dezenas de cães Portadores, que por sua vez, estão sendo utilizados
por vários criadores em todos os meios em que a raça está presente, no
Pastoreio, Agility, Show, principalmente na criação para estes fins. Estes cães
Portadores, inadvertidamente e, até agora não por culpa dos criadores, estão
sendo cruzados entre si e isso representa um grande perigo para a raça em
nosso país.

Depois de alguns testes, muitos destes cães foram diagnosticados Portadores
de CEA/CH e quanto às outras 2 doenças, em breve os testes de CL e TNS da
Austrália também serão feitos. Felizmente o histórico de CL dos ancestrais dos
Borders no Brasil mostra uma incidência quase nula nas linhas de sangue
utilizadas, onde quase todos são CLEAR por parentesco (com cães ancestrais
já testados). Mas a probabilidade de presença de Portadores de TNS deve ser
levada em conta, até que se tenha certeza do genótipo de cada cão.

Resta-nos saber o que fazer agora, como proceder? Devemos simplesmente
riscar dos nossos plantéis os cães excelentes que temos? Castrar os
Portadores? Ou só castrar os Afetados? Ou não castrar nenhum deles?

Bem, a resposta estará na cabeça e consciência de cada um, aqueles que
puderem testar todos os filhotes de cruzamentos permitidos (quadro acima)
devem fazê-lo sem pestanejar. Aqueles que não quiserem correr nenhum risco
devem utilizar somente cães Normais para as 3 doenças citadas acima. Para
tanto já se está fechado um acordo com a Optigen, que viabilize valores mais
baixos para os testes de ninhadas, já que os filhotes tem que ser
microchipados e o exame feito antes dos 3 meses, podemos chegar até mais
de 40% de desconto se testarmos as ninhadas de acordo com as orientações
deles. O custo dos exames de CL e TNS já é bem baixo, vale a pena fazer.
Após os resultados dos testes das ninhadas e de acordo com os planos do
criador, os Portadores poderiam ser castrados e vendidos como pet ou para
esportes e trabalho, enquanto os Normais poderiam ser vendidos para criadores
novos ou antigos.

Chegamos aqui a mais um impasse! Será que alguém gostará de comprar um
filhote já castrado, sadio, mas portador de um gen que provoca uma doença,
mesmo que ele nunca venha a ter a doença? Ou ainda, será que vão querer
aguardar mais tempo para poder escolher seu filhote, até que esteja testado?
Isso não iria encarecer o valor do filhote mais ainda? Cada um terá as suas
respostas e o mercado vai estabelecer os valores. O mais correto seria fazer o
exame nos filhotes, destinados à criação, com risco de apresentarem algum
dos genes recessivos, assim que for possível microchipar e, depois dos
resultados, utilizar só os Portadores que forem muito bons, testando sempre
seus filhotes para criação, resultando daí um aproveitamento de linhas de
sangue que, caso contrário, poderiam ser perdidas para sempre. Após alguns
cruzamentos onde se fica com os filhotes Normais, pode-se parar de usar os
Portadores, passando a usar então só os cães Normais, evitando assim em
100% o risco de disseminar o gen. Este procedimento é aprovado e autorizado
pelos Clubes mais rígidos da raça, em países como Inglaterra e Austrália. Hoje
esta é a única forma de evitarmos o pior, pois neste momento várias ninhadas
com cães Afetados podem estar nascendo, sem que os criadores saibam o
que estão fazendo.

Em Border Collies os efeitos da CEA ainda não foram muito pesquisados.
Sabe-se muito mais sobre a doença pelas pesquisas com a raça Collie, que
com o passar do tempo e com o cuidado dos criadores, conseguiu-se inclusive
atenuar os efeitos da doença do plantel atual, já que a incidência de CEA em
Collies é altíssima e usam-se os cães Afetados na reprodução. Só que os que
tinham sintomas mais graves foram afastados e os que eram meio
assintomáticos eram utilizados, isso atenuou a doença na raça. Sabe-se que
só 25% dos cães tem a forma mais severa da doença e podem desenvolver
uma cegueira total ou parcial. Porém os outros 75% podem até serem
assintomáticos, os chamados “GO Normal”, cães onde a lesão, inicialmente
detectada no exame oftalmoscópico quando filhote, é escondida pela
pigmentação durante o crescimento e não provoca males mais graves na visão
do indivíduo, que leva uma vida normal. Portanto cães que anualmente são
examinados por um Oftalmologista e atestados como CLEAR, podem ser
Afetados “GO Normal”, mostrando mais ainda a importância dos testes de
DNA.

Já para CL e TNS, os cães afetados não tem a menor chance de uma vida
saudável, ou morrem de infecções oportunistas quando filhotes, ou de males
neuronais terríveis quando jovens.

Tudo isso estará sendo vivenciado por muitos criadores, dos grandes e dos
pequenos. Não é errado afirmar que, hoje existe uma grande probabilidade do
cão, ou cães, que estão no seu canil, serem portadores de CEA, ou de alguma
das outras duas doenças. Por isso corra e faça os exames antes de continuar
reproduzindo seus cães, é uma questão de responsabilidade para com a raça.

Conclusão, além da CEA, as outras duas doenças, CL e TNS, que são mais
graves, porém de incidência menor, devem ser testadas pelos criadores, sob o
risco de disseminarmos doenças piores ainda, como já o fizemos com a própria
CEA.

https://www.vgl.ucdavis.edu/services/TNSBorderCollie.php

http://bordercolliehealth.com/TNSdatabase.html

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